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04/11/2006 14:01
O texto a seguir é uma brincadeira que fiz com o Torero. Escreveu ele O Diário de Adão retratando o pensamento do primeiro homem. Escrevi os pensamentos da primeira mulher!
Vou publicar então as duas versões:
CRÔNICA DO ÉDEN
Esta crônica abaixo foi encontrada por estudiosos da bíblia em Israel, o que parece ter sido escrita por Eva, pois não se trata de um pensamento de um ser qualquer, mas sim descrições de sentimentos com indícios que apontam terem sido da primeira mulher.
Aqui é um lugar muito bonito cheio de plantas e seres que de tão desiguais transformam harmonioso o que o Senhor chamou de paraíso. Antagônica ou não esta afirmação é assim que sinto o paraíso, aqui tem muito ao contrário! Tem por exemplo um bichinho pequeno que rasteja pelos galhos das plantas, possui muitas pernas, parece pegajosa, que nojo! Logo depois passa por uma transformação, ganha cores, asas, se torna linda, se junta a outras e sai revoando as colinas deixando o paraíso ainda mais belo!
Certo dia acordei, não me lembro de como fui dormir ali, não recordava nada e esta situação era curiosamente estranha. Curiosa por que tudo ao meu redor era novo e nada me causou medo.
Vi-me diante de uma espécie que me observava com certa indiscrição, espécie esta que num futuro longínquo viria a ser precisamente descrita por Eça de Queiroz: Um pêlo crespo e luzidio cobria todo o seu grosso, maciço corpo, rareando apenas em torno dos cotovelos, dos joelhos rudes, onde o couro aparecia curtido e da cor de cobre fosco. Do achatado, fugidio crânio, vincado de rugas, rompia uma guedelha rala e ruiva, tufando sobre as orelhas agudas. Entre as rombas queixadas, na fenda enorme dos beiços trombudos, estirados em focinho, as presas reluziam, afiadas rijamente para rasgar a febra e esmigalhar o osso.
Desviei-me encabulada para trás de uma oliveira, senti queimar a face diante daquele animal desconhecido. Por instantes que pareceram horas ele permaneceu a me observar, com certeza também não entendia a minha presença ali, tínhamos muito de parecido, mas também de diferente, me perdia entre a confusão e o desafio do momento, até que ele se afastou.
No dia seguinte horas antes da luz se apagar para retornar somente horas depois como sempre ocorre, ele apareceu. Mais desinibido, trazia um pedaço de madeira na mão e um ensaiado texto, falava sem pausas e com voz trêmula, os ombros para trás, dono de si, os músculos forçadamente maiores e o abdômen com o empenho nem era tão aparente. Quando equilibrava o corpo esquecia a fala, se falava descompunha aquela estrutura forte, bruta e incrivelmente interessante. Dizia estar vindo de uma grande luta, fato que fez questão de enfatizar, no que me contou a peleja com um macaco que lhe fraturou uma costela justificando assim as dores que ele viria a ter nos dias que se seguiram.
Parecia-me forte e que poderia cuidar de mim, me senti segura com ele por perto.
Convidou-me para visitar o lugar onde vivia, achei-o desorganizado, folhas de bananeira jogadas por toda parte. Dormia onde comia. Resolvi fazer algumas divisões na sua caverna. Deixei tudo arrumado e florido, depois fiz uma carne que ele adorou, comeu muito e freqüentemente sorvia a boca com um líquido amargo, amarelado e espumante que me fez compreender o abdômen avolumado. Olhou-me com o canto dos olhos e sorriu dizendo: Um manjar dos Deuses!
Para retribuir o convite o presenteei com uma cesta de café da manhã muito rica em frutas, foi quando ele me pediu em casamento. Fiz uma grinalda de flores do campo muito bonita e lírios brancos para o buquê, nos ajoelhamos junto à cachoeira e o Senhor nos abençoou.
Infelizmente ele já não gosta tanto assim dos pratos que preparo, tem o hábito de fazer um barulho horrível com a boca quando dorme, o que me impede o descanso e fica aborrecido se o acordo. Está sempre cansado, tarda acordar, não dá atenção quando falo ou quando coloco flores no cabelo e passa horas subindo em árvores com os macacos. Eles agora escolheram o dia de descanso para organizar campeonatos de subida em árvores com macacos de outras ilhas, no final do dia sempre volta cansado, com as mãos e os pés machucados e por vezes com o mal cheiro dos macacos misturado ao do líquido amargo e faz os barulhos horríveis com a boca a noite toda!
Mas quando a luz aparece brilhante no paraíso ele faz com que tudo pareça tão especial, tão simples, que meus sentimentos primeiros tornam-se presente e eu percebo que seria impossível sobreviver sem ele.
O DIÁRIO DE ADÃO (José Roberto Torero)
Durante uma breve viagem para Israel, onde fiz pesquisas para um livro sobre a Bíblia, achei uns pequenos retalhos de couro onde estavam inscritas páginas de um curioso diário. Estranhamente, o escritor deste diário assina-se Adão. Não sou eu quem vai afirmar que este pedaço de couro foi escrito pelo primeiro dos homens, mas também não sou eu quem vai negar.
Como este Adão escreveu sobre uma mulher, talvez a primeira de todas, resolvi transcrever os pedaços de couro, a fim de revelar um pouco do pensamento masculino:
Éden, 25 de maio de 353.245 a.C., quarta-feira
Querido diário, acordei com uma tremenda dor nas costelas. Parecia até que me faltava uma. Mas não gosto de falar de dores. Ainda mais num dia como esse, tão cheio de surpresas. Imagine que hoje descobri um novo bicho. É dos mais estranhos que já vi. Não que tenha um nariz como o do elefante, um pescoço como o da girafa ou a língua do tamanduá, mas o tal animal tem partes como eu nunca tinha visto. Possui pelos em poucas lugares, uns lisos, outros cacheados. Suas linhas são muito suaves e cheias de curvas muito belas, embora eu não lhes veja utilidade. Hoje, só nos olhamos de longe. Amanhã tentarei contato.
Éden, 26 de maio de 353.245 a.C., quinta-feira
Caro diário, entrei em contato com o tal bicho. Assim como todos os outros aqui no Paraíso, esse animal sabe falar, se bem que sua voz seja um pouco mais fina. Mas se é mais fina, não é menos ativa. A nova espécie fala mais que um papagaio, e, em geral, de si mesma. Notei também um estranho costume: enfeitar-se. Essa alimária parece-me muito vaidosa, tanto que ficou toda a tarde a procurar flores para pôr nos seus cabelos. Decidi chamar-lhe mulher. Apesar da vaidade, sua companhia é agradável e creio que faremos amizade.
Éden, 27 de maio de 353.245 a.C., sexta-feira
Amigo diário, trabalhei na horta e dei nome a mais alguns bichos. A mulher ajudou-me na tarefa e disse que eu estava fazendo tudo errado. Entrou na minha caverna, resolveu mudar tudo de lugar e colocou algumas begônias na entrada. Depois preparou-me uma carne de tigre-dente-de sabre que estava realmente muito ruim. Como sou educado, menti e disse-lhe que estava ótima. Em agradecimento, tocou seus lábios no meus. Minhas mãos ficaram suadas e meu estômago parecia dar voltas. De qualquer forma, acho que gostei. Amanhã quero experimentar de novo.
Éden, 28 de maio de 353.245 a.C., sábado
Prezado diário, logo que acordei, tive uma surpresa. A mulher tinha preparado uma cesta com frutas e mel e para mim. Ela me disse: "Oi, querido", e passou as mãos nos meus cabelos. Gostei. Será que vai ser sempre assim? Passamos o dia juntos, andando pelas matas. Ela gosta de conversar sobre flores, dores, comidas e enfeites. Não gosta de correr, nem de subir em árvores, e muito menos de lutar com os macacos. À noite encostou em mim. Aquilo me deixou feliz e convidei-a para viver na minha caverna.
Éden, 4 de setembro de 353.245 a.C., terça-feira
Saudoso diário, sinto ter abandonado suas páginas por tantos dias, mas é que desde que a mulher mudou-se para minha caverna já não tenho tanto tempo. As coisas não vão tão bem como eu pensava que seriam. A mulher briga comigo por qualquer coisa, muda muito de humor e sempre diz que eu não sou o companheiro que ela esperava. Sinto saudade de brigar com os macacos. Ela diz que eles me deixam com cheiro ruim, então não os vejo mais. Tenho sentimentos estranhos pela mulher. Ela me irrita muito, mas não consigo ficar longe dela. Acho que será assim por muito tempo.
enviada por Sil
25/10/2004 19:39
TEATRO É CULTURA?
Em cidade pequena qualquer oportunidade que se tem de sair do cotidiano é muito bem vinda para àqueles que aspiram mais que as limitações dela. Aspira-se conhecimento, entretenimento e cultura.
Foi em razão de não perder esta oportunidade que a Vivi e eu, resolvemos assistir a peça: Nove semanas e meia de amor. O anúncio de tal acontecimento se deu pelo próprio ator: Vitor Branco.
Para noticiar a apresentação com o apoio do centro cultural da cidade, ele recorre à rádio, TV e vai pessoalmente às escolas divulgando a peça para alunos do primeiro e segundo grau. Coisa rápida, em um ou dois dias ele conseguiu incendiar a cidade e o desejo de quem vive longe dos grandes centros onde o teatro é algo bem mais acessível.
Chegamos cedo, com meia hora de antecedência. Abordamos conhecidos, fomos retocar o batom, jogamos conversa fora e com uns 20 minutos de atraso abriram finalmente as portas. Escolhemos a 2ª fileira do lado direito do teatro. Cadeiras foram improvisadas no centro e ainda assim por falta de lugar algumas pessoas sentaram-se no chão.
Minutos depois vozes adentram o teatro, ouve-se coisas como: Eu vou entrar...,Não quero saber... O público olha para trás e percebe tratar-se do ator. Travestido, usava uma túnica modelo onça, peruca e salto. Brincou com o público, tropeçou, arrancou gargalhadas. Parecia mesmo que seria uma grande comédia.
As luzes se apagam, a atriz aparece no palco, desce e anda pela platéia procurando algo no vazio (parte da peça), novamente volta ao palco, entra o ator, e começaria a partir dali um show de péssima qualidade salpicado de esquecimento de falas de ambas as partes, palavrões e gestos obscenos.
A começar pela atriz que o ingresso anunciava sendo uma integrante do programa Zorra Total da TV Globo, e que se tratava de uma anônima, mas este não seria o item que a desqualificaria, temos atores anônimos ótimos, porém qualidade não foi o requisito forte na nossa atriz. O ator a julgar pelo currículo poderia ter dado mais brilho ao espetáculo, mas talvez estivesse em uma noite ruim, em alguns momentos até deu show, entretanto a amnésia de falas e os já citados palavrões e obscenidades, macularam estes esporádicos momentos.
Ao final da peça o teatro fica em pé, conduzidos pela primeira fila do lado direito que por coincidência eram parentes da atriz. Parentes tipo: mãe, pai, irmãos (coisa pouca), que se levantou puxando os aplausos. O ator inicia uma lista de agradecimentos aos patrocinadores e ressalta que a cidade sempre o acolheu muito bem e parabeniza pelo investimento na cultura.
Esta declaração avessa a sua apresentação deixou no ar um questionamento: o que foi apresentado é cultura? Ele pessoalmente foi nas escolas convidar os adolescentes para assistir a tal peça, e esta foi a sua responsabilidade com o que ele chama de cultura? Será que ele próprio acredita que a sua peça da maneira que ele apresentou pode se dar o adjetivo de cultural? Pois a mim para ser amena, me pareceu um grande descaso com a cidade, com o público e sobretudo com a própria cultura.
enviada por Sil
13/10/2004 09:26
FERNANDO SABINO
A primeira crônica que me foi apresentada ainda menina foi O Homem Nu de Fernando Sabino, embora muito criança não me esqueci dela pela graça que achei, mas achei só engraçado, não poderia vislumbrar naquela idade mais nada além da graça, e confesso que outras que vieram pela frente inclusive de outros autores, nem graça havia e isto fazia as leituras de crônicas tornarem-se tediosas, o que retardou em anos meu gosto por elas.
Há bem pouco tempo assisti uma entrevista com Fernando Sabino, fiquei particularmente comovida pela sensibilidade daquele homem e pela identificação em alguns pontos de vista. Traduziu ele em um determinado momento o gosto pela padronagem das coisas, como observar as pessoas em pontos de ônibus: me dá vontade de ir lá e arrumar as pessoas, de forma que fiquem os mais altos próximos dos mais altos e os menores ao lado dos menores. Desejos que eu também tenho ao observar a mesma cena.
Durante muito tempo acreditei que a influência pelo gosto das crônicas tivesse vindo de outros escritores, nunca citei Fernando Sabino como ídolo dentro da literatura, mas exatamente hoje quando o anúncio da sua morte se tornou algo que me reportou a infância é que foi possível fazer a justiça, embora tarde, mas feita.
Em nada muda a descoberta mas ela me faz me sentir melhor em relação àquele que foi o precursor da crônica em minha vida.
Doeu quando Vinícius morreu, dói a morte de Fernando.
"Se em horas de encontros pode haver tantos desencontros, que a hora da separação seja, tão-somente, a hora de um verdadeiro, profundo e coletivo encontro. De tudo ficarão três coisas: a certeza de estar sempre começando, a certeza de que é preciso continuar e a certeza de ser interrompido antes de terminar. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sonho uma ponte, da procura um encontro.
Fernando Sabino - Encontro Marcado
enviada por Sil
04/10/2004 23:13
O vazio deu lugar a revolta, que fez parceria e se alternou com a indignação, hora sou revolta, hora sou indignação...
Não são sentimentos nobres, mas quem está preocupado com isto?
Eu estou.
Tão certinha sempre, tão calminha, sensatinha, chatinha...chatinha...
É isso gente! Desencalhei o blog mas neste estado não dá para criar nada de bom!
Vai passar!!!
enviada por Sil
03/10/2004 21:20
...não sinto nada... só um vazio...

enviada por Sil
29/09/2004 14:18
DEMOCRACIA
Falta pouco e todas as cidades do país conhecerão seu novo prefeito. Eleito pelo povo porque a democracia assim permite.
Nas poucas opções que se tem, o povo pode escolher entre um candidato e outro que hoje está em um partido ideologicamente constituído e coligado com diversos, mas que um dia já tenha sido de um outro partido com ideologias já ultrapassadas?
Outro dia eu assisti o Clodovil aconselhar sua secretária de programa:
Você está cursando letras? Para que? Você vai querer ensinar e as pessoas não irão aprender e aí você vai ficar frustrada.
E se frustra mesmo. Além de frustrado você começa a ter uma certa antipatia, repulsa melhor dizendo, por alguns pés descalços, que na vida não tiveram sorte, que são o resultado de uma política feita para alguns e de uma democracia norteada por seus feitores, entretanto são eles que escolhem estes mesmos políticos.
Já que a eleição para prefeito tem poucas opções não é o que ocorre em relação aos vereadores, as opções são de encher os olhos, tem candidato para o gosto de qualquer um, tem até os comprometidos de fato com as necessidades do povo.
É que burrice irrita, machuca, dói! É Como escreveu Antônio Caetano em uma das suas crônicas: O problema da burrice é que ela é dogmática e inflexível. A burrice se aconchega em certezas e não percebe que toda opinião sempre fala mais de quem a emite do que sobre o objeto que comenta. Todo pensamento é sintoma".
Bem já há tempos ouço dizer que brasileiro não tem memória, e olha aí os candidatos antigos em partidos novos, de maquiagem!
Mas neste momento a minha repulsa não é pela burrice nem pela amnésia de ninguém, é pela falta de caráter mesmo, que tem seus adeptos acreditem não só na política, mas também naquela senhora de vida difícil que mora sozinha com a filha e não tem dentes... Ela mesma, que sabe abordar e negociar seu voto, que desconhece a frase: O político é eleito para legislar para todos e não favorecer uma única pessoa, porém que num tom cínico e claro sabe dizer: Eu não tenho candidato, mas estou precisando de uma cesta básica!
Gente se o político pode ser caçado e responder processo por aliciamento de voto, o eleitor também não deveria ser?
Assim é a contramão da nossa democracia, que te impede o diálogo e que no mínimo te frustra!
Boa eleição para todos!
enviada por Sil
18/06/2004 01:27
Banho de açude
BANHO DE AÇUDE
O réu teria 1,75 mts. no máximo; moreno tostado do sol, cearense; usava camisa preta, calça jeans; se parecia com Severino, João, Pedro, José... Tinha a aparência da maioria dos brasileiros trabalhadores da construção civil.
Quando criança não foi à escola.
__ Tinha que ajudar na roça. Respondeu ao juiz.
A sala muito ampla com decoração sombria. Nas paredes altas que um dia já foram muito brancas, retratos de juizes do passado, arrumados de maneira à antiga de um jeito que a parte inferior fique segura por pregos e a superior sustentada por um fio, avançando uns 20° para frente.
__ Foi porque me falaram lá na rua que ela estava me traindo com o Agostinho.
__ Com quem?
__ Com Agostinho.
__ Ah! Lhe disseram que ela estava o traindo com o Agostinho?
__Sim senhor.
A meia parede era revestida em madeira escura, portas de madeira escura, bancos de madeira escura, piso escuro.
__ Não a socorri porque fiquei com medo dos irmãos dela fazer alguma coisa para mim. Ela saiu correndo por uma porta e eu pela outra.
Homens de capa preta sentaram-se em locais estratégicos. Eram três e falavam em momentos também estratégicos.
Na mesma cadeira que o réu há poucos minutos defendeu-se do ocorrido, agora estava a mulher.
Rosto comum, cearense, se parecia com Maria, Aparecida, Joana...Tinha a feição da maioria das brasileiras trabalhadoras, domésticas.
__ Então foi por causa desse banho de açude aí que ele atirou em mim, concluiu a mulher.
__ E como aconteceu? Indagou o juiz?
__ Eu viajei pro Ceará e fui tomar banho de açude com minha irmã, meus irmãos e outras pessoas; e ele ficou com ciúmes, como tinha ciúmes de todo mundo.
Partes da decoração, as cadeiras de formato quadrado, eram vermelhas e almofadadas. Em uma delas o réu permaneceu todo o tempo sentando, de frente pro júri, cabisbaixo e olhos fixados no chão.
Foi então que um dos homens que usavam a toga se levantou e o réu precisava ser condenado!
Praticou o crime por motivo torpe, usando arma de fogo, após ter espancado a vítima.
A vítima não morreu porque foi socorrida por outras pessoas, após pular a janela ao conseguir se desvencilhar dele. Atirou porque a mulher tomou um banho de açude.
O outro homem se levantou, também tinha uma beca e desta vez o réu deveria ser absolvido.
O réu é homem trabalhador, pai de família, sem antecedentes e agiu num momento de emoção.
__Afinal a arma tinha ainda cinco projéteis, se quisesse matar teria descarregado todos eles.
Ao final da defesa, o advogado faz uma analogia contando aos jurados uma passagem com Santo Agostinho.
Por muitos minutos todos saem, juiz e júri. Ao voltarem o réu se posiciona em pé na frente do Juiz para ouvir a sentença. E a alusão feita pela defesa a Santo Agostinho rendeu ao réu resultado favorável.
O primeiro Agostinho provocou a possível condenação, o segundo Agostinho, o Santo, o absolveu.
Fazer a justiça nem sempre é trabalho fácil, nem tão certo. Às vezes é melhor evitar injustiças maiores que a justiça feita poderia causar.
enviada por Sil
14/06/2004 14:06
Paredes de vidro
PAREDES DE VIDRO
As paredes da sala de aula são de vidro. Primeiro andar em uma esquina no centro nervoso da minha pequena cidade.
Do outro lado da rua, quem olha da esquina tem uma visão de 90º dentro da sala, o que me promove duas sensações: exposição e voyeurismo. A primeira se explica pela matéria de que é feita a parede: o vidro. Este protege, mas com sua transparência própria, desnuda a sala exibindo o seu conteúdo.
Poderia ser apenas mais uma sala de vidro como tantas outras, mas a geografia e a sua altura em relação à rua me permitem viver estas sensações. Basta a quem passa levantar apenas um pouquinho os olhos, e me torno atriz num cenário criado pela casualidade.
Andando pela rua, quase ninguém olha para cima, e no caso da sala, ela tem concorrentes: as vitrines, que admiráveis e enfileiradas horizontalmente abaixo dela, são minuciosamente arrumadas para hipnotizar olhares, o que me garante o voyeur.
Já testemunhei situações diversas, algumas inusitadas indignas de serem escritas, algumas que edificam a dignidade e merecem menção, como àquela senhora que toda manhã chega empurrando uma espécie de carroça, muito maior e mais pesada que ela, e põe-se a revolver o lixo a procura da matéria reciclável que vai lhe garantir algum dinheiro.
Já me perguntei: Mas quanto? Quanto será este algum?
A esquina parece uma armadilha para os carros, os que vêm da rua de cima e viram para baixo ao fazê-lo são obrigados a abrir mais para a esquerda, evitando bater naquele que está estacionado, esta manobra os lança na direção de quem sobe, isto me deixa diariamente tensa. Sempre visualizo uma colisão entre eles, ainda que felizmente não aconteça. Talvez este estado que as cenas me provocam, justifique a fobia que tenho por dirigir. Todo dia a mesma tensão em doses homeopáticas...
As paredes de vidro me proporcionam também um outro espetáculo: atrás da cidade depois das construções estão as montanhas, observá-las num final de tarde é uma sensação impar, mescla de paz, felicidade e bem estar.
Por vezes tomada pelo impulso me vejo correndo pela sala de um vidro para o outro, tentando ser vista por aquele amigo ou amiga que há tempos não vejo; quando fazem a esquina abaixo da sala consigo dentro dela também fazê-la e chegar antes deles até o outro lado, mas não me vêem e isto me frustra, e para evitar o escândalo me policio sempre e reprimo a vontade de abrir um dos vidros e chamá-los.
Hoje os alunos estavam em prova e eu escrevendo este texto, foi quando vi o Cristiano Braga. O Cristiano foi meu aluno e nos tornamos amigos. Já tem algum tempo que não o via, ele se mudou para São Paulo depois de ter fechado sua revista. Não resisti e após ver o Cristiano passar diversas vezes na rua abri o vidro e o chamei, com ele todos que passavam também olharam, é incrível como em fração de segundos muitas coisas podem acontecer. Após o grito e o aceno, desencadearam-se diversas situações provocadas pela interrupção inesperada de um simples oi!
A parada brusca dele após o susto antes de chegar na calçada numa rua tão transitada por carros! O meu rosto queimou sem graça aos olhos de todas aquelas pessoas que tiveram seu trajeto interrompido pelo cumprimento surgido do alto. Voltei meu sentido para dentro da sala, onde os alunos também me olhavam movidos por minha ousadia.
Estas paredes são mesmo incríveis! Vivo situações que não estaria normalmente no contexto de uma sala de aula.
Ao Cristiano resta me desculpar pelo mau jeito, mas era só para dizer um oi!
enviada por Sil
11/06/2004 08:12
A culpa é do Brasil
A CULPA É DO BRASIL
Este título aí em cima, não é meu, é do artigo escrito por um tal Melão, (frutinha sem gosto né?)
Cada coisa que se é obrigado a ler! Meu aluno ontem, um senhor por quem tenho muito respeito e que vez ou outra tecemos uns assuntos políticos, trouxe-me uma publicação do tal Jornalista. Jornalista este que se li foi uma ou outra coisa, e que provavelmente não gostei porque não li mais. Boa parte daquelas quatro longas colunas do jornal foi para falar de seu passado socialista, mal resolvido e indefinido!
O pior é que tinha que ler em respeito ao meu aluno, mas não foi fácil! Como disse a Ana Paula no seu blog: soda cáustica. devo ter colado uma caixa inteira de babaloo de melancia (no meu caso de mellão) na cruz, bem no pé de Jesus Cristo. Enfim para quem também andou colando estes chicletes em lugares indevidos vou continuar o comentário:
Escreveu ele que quando era estudante convivera com alguns colegas que pouco tempo depois viriam ajudar a fundar o PT. Entre outras coisas, falou da vontade que às vezes tem de ligar hoje para um destes ex-colegas e indagar o que eles estão achando do PT no governo. Ele, que não seguiu a linha utópica de seus colegas e preferiu ser realista se tornando um liberal.
Pasmem!!! O homem esperou a vida toda para escrever isto num jornal. Estou até vendo a cara sarcástica na hora de escrever o artigo, as mãos nervosas, esfregando-se uma na outra e com um pouco mais de sonho e menos realidade quem sabe o jornal viria com o som da gargalhada. E reafirma sua posição hoje, a mesma que tinha em seu tempo de estudante: tenho vontade, às vezes, de ligar para um daqueles ex-colegas de escola....
E pelo jeito vai ficar só na vontade! Porque nada fez, nada faz e provavelmente nada fará... tão fácil atirar pedras... Melhor é continuar escrevendo num jornal importante, sendo realista, liberal... Mas afinal o que é mesmo um liberal? Que faz um liberal? Que pensa um liberal? Quem é mesmo liberal? Alguém pode me dizer o que é um liberal?
enviada por Sil
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